segunda-feira, 28 de março de 2011

Sinais...

Os pingos da chuva eram leves mas mesmo assim era necessário abrir o guarda-chuva. Caminhava despreocupada mente rumo  a plataforma seis do ônibus. A frente duas senhoras com seus quarenta ou cinqüenta anos. Uma delas, a mais nova, carregava um guarda-chuva vermelho a outra olhava para o teto da plataforma. ( talvez pensava; agora os pingos da chuva não me atingem). Em questão de segundos aquele lugar que abrigava quatro pessoas foi ficando cheio. Veio um rapaz de bermuda colorida e guarda-chuva preto, uma moça que ouvia música( estava com seu fone de ouvido), uma senhora de cabelos grisalhos e semblante sereno, dois senhores que entraram juntos e depois se separaram, um senhor de camisa bege e boina branca( devia ser bom de samba) e outro senhor de face endurecida.
A moça olhava para todos, tentava entende-los pelos gestos, nenhuma palavra era dita, apenas olhares que muitas vezes eram desviados quando se encontravam. A chuva era fina.
Um senhor, que estava de pé, queria se sentar, todos os bancos estavam molhados...aí o silêncio foi quebrado. O senhor de boina começou a conversar com o senhor que queria se sentar. Falavam da chuva. Um reclamava, dizia que esse excesso de chuva ia estragar a plantação. O outro concordou e falou que o café estava crescendo. A moça não entendeu. Ele concordava que a chuva podia estragar a plantação ou a chuva ajudava pois era época do crescimento do café?
A chuva continuava fina.
Veio o ônibus. Todos entraram apresada mente. Ônibus lotado. A moça olhava para a rua. O vidro estava embasado. Num gesto ela o limpou, a visão da rua ficou mais clara, só aquela pergunta não havia sido esclarecida; o senhor de camisa bege e boina branca achava que a chuva era boa ou não? Ajudava a plantação ou atrapalhava?
A chuva continuava fina.
É um bom sinal, pensava a moça.

Um comentário:

  1. Estava eu a reler esses escritos e lembrei das 'Cartas a um jovem poeta' do Rainer Maria Rilke... veja como parece as palavras acima seguirem o conselho dele:
    ---
    "Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas."
    ---
    Taí... trecho da primeira das cartas assinadas por Rilke datada de fev/1903 em Paris.
    ---
    Resta saber se esclarecer se a chuva é boa ou não segue o conselho, sobretudo porque daí escapa às questões rotineiras do ordinário para assumir uma vestimenta moral: boa ou não?
    ---
    Muito bom os escritos.
    Abraços,
    Carol

    ResponderExcluir